Muito tempo sem você. Esse muito é meu muito, eu sei. Razoavelmente poucos anos se foram desde aquele dia triste - mas iluminado - em que lhe vi pela última vez. Mas esse tempo, cronologicamente tão ínfimo, tem quilômetros e quilômetros de sentimento. Parece uma esteira imensa de eternidade que cruza a minha alma por dentro; estou no meio e não vejo nem o início, e nem o final dela. Acho que é isso que chamam de saudade. Não uma dor aguda, desesperada, não uma crise. Mas uma falta crônica, que vai ganhando impiedosamente, dia após dia, mais tamanho, ainda que seja tranquila.
Você mesmo me disse uma vez que o esquecimento não era bom, e que era uma arma das pessoas fracas. Você me disse que as pessoas fortes não esquecem, mas se lembram, e remexem, e remóem, até que seja fácil viver com tais lembranças, até que não doam mais; assim essas pessoas nunca esquecem o que são - “a água do esquecimento é turva, não beba dela, querida”. Você me disse tantas, tantas coisas sobre a vida, me ensinou tanta coisa, me deu tantos exemplos, mesmo falando pouco. Da sua boca eu ouvi tantas coisas sábias, que todos os dias repito para alguém. É um jeito de não deixar você morrer, ainda que eu mesma morra amanhã, ou daqui a poucos dias.
Por algum tempo, eu tentei esquecer a falta que você me fazia, você, meu grande companheiro, meu herói, que me deixou aqui, sozinha. Sei que não fiquei e não estou sozinha de fato. Mas, por alguma razão, o seu lugar ninguém nunca mais ocupou. Um dia, decidi me lembrar de tudo quantas vezes quisesse. Lembrar do conforto e proteção que havia em seus braços. Lembrar da sua figura debruçada na janela daquela casa que tem o cheiro do melhor da minha juventude, horas e horas, assobiando e vendo as pessoas andando de um lado por outro ( me pergunto o que tanto você pensava ). Lembrar dos seus cochilos no sofá.
22:22 - 06/03/2009
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