Pai, agora ficou bem fácil conversar com você, falaremos de alma pra alma, livres das tensões, seu rosto está sereno, sem marcas do padecer, suas mãos estão limpas, sem aqueles arranhões.
Você não precisa mais suportar um sol intenso, subir em postes, nem segurar fios de alta tensão, para consertar a telefonia, num percurso imenso, correndo o risco de cair e se espatifar no chão.
Podemos conversar sem aquelas preocupações, com contas atrasadas, com o nosso futuro, sem aquele seu olhar cheio de interrogações, procurando para nós um caminho mais seguro.
Não o vejo mais, no quintal, triste, apreensivo, olhando o horizonte, pedindo a Deus inverno, calado, suplicante, abafado, sempre pensativo, seu semblante era fechado, não era terno.
Sua luta, sua determinação, sua franqueza, suas exigências, sua perseverança e coragem, fizeram de mim um batalhador por natureza, estou sempre de pé, não importa a estiagem.
Sinto saudades daquelas noites em claro, ouvindo os repentistas ao som da viola, era a toada do sertão, um momento raro, e o soluço do violeiro ainda me consola.
Sinto falta do seu humor, de suas piadas, você sorria da dor, dos fatos pitorescos, nas procissões , nas longas caminhadas, da banda desafinada, daqueles refrescos.
Sinto saudades daquelas nossas caçadas, você atirava bem e eu corria para recolher, o pancum, o marreco, naquelas espinhadas, a gente voltava para casa ao entardecer.
Guardo a lembrança de sua luta renhida, de um homem curtido na dureza do sertão, que fez o que pode, numa vida sofrida, obrigado, você jamais falhou por omissão.
E, ainda hoje, sinto falta de nossa casinha, na rua 15 de novembro, do nosso roçado, da lagoa da bastiana, do que se tinha, era pouco, era pobre, era o nosso bocado.
-continua
23:13 - 06/04/2009
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